8.9.09

Passado Dependurado

O sol já havia nascido há horas mas dentro daquele pequeno apartamento tudo ainda permanecia escuro. Poucas e pequenas aberturas na janela de metal estendiam feixes de luz sobre as partículas que voavam pelo quarto. Um espetáculo à parte.

Um cheiro acre vindo do último filme fotográfico jogado ao fogo ainda persistia pelo local mas ele não se importava. Parecia até apreciar aquele cheiro.
Havia apenas três cômodos naquele apartamento. Dois quartos e uma sala-cozinha.
E por todo lado podia-se ver um nível acentudo de bagunça.
Um amontoado de roupas jazia sobre um sofá de couro preto no canto da sala, ao lado de uma pilha de envelopes pardos visivelmente cheios e lacrados. De frente ao sofá ficava uma pequena escrivaninha e uma cadeira, onde ele estava.

No menor dos quartos havia apenas uma cama desarrumada e um armário entreaberto que deixava visualizar as poucas roupas em seu interior.
No quarto maior, em diversas direções e em todas paredes, havia vários fios de barbante estendidos, todos com diversas fotografias dependuradas exibindo um passado iluminado e atualmente impensável.
Num pequeno balcão encostado à parede estavam diversos outros filmes que escaparam de ser incinerados.

E ali, na sala, estava ele, sentado naquela cadeira de madeira reta de frente à escrivaninha, havia horas. Em uma das mãos segurava uma folha.
Uma carta. Uma última carta.
Na outra mão, um cigarro aceso. E não seria o último.
Um cinzeiro sobre a mesa já estava cheio, mas nada mais importava.

A ausência dela perfurava-o como uma lâmina em brasa.

O jovem sorriso dela ainda resplandecia através de várias das fotos penduradas. Alguns ainda juntavam-se ao seu perfeito par de olhos escuros. Outros vigoravam dominantes e solitários sobre toda a fotografia.

Muitas daquelas fotografias eram literalmente pedaços de sua alma de outrora que materializavam os sonhos de um passado não tão distante. Sonhos que pareciam tão certos e ao mesmo tempo felizes demais para se tornar realidade.

Mas tornaram-se, mesmo que por algum tempo.

O cigarro acaba, assim como sua leitura da carta.
Nem se lembra quantas vezes a releu, mas ainda assim permanece com ela nas mãos.
Ele recosta-se à cadeira e larga o toco do cigarro sobre o cinzeiro. Pega então um rolo de filme sobre a mesa e se levanta.
Alguns passos e está no quarto com as fotografias penduradas.
Seu olhar as percorre rapidamente e se detém em uma determinada fotografia.


Dois rostos cortados pela metade exibem grandes sorrisos e ao fundo um horizonte de uma praia. O céu e o mar contrastando em diferente tons de azul mas quase se fundindo.
A arte em si não está perfeita, mas sem dúvida é a melhor fotografia ali.
Seu olhar mantém-se sobre ela por mais alguns momentos e então, como se despertasse de um sonho ruim, ele balança a cabeça rapidamente.
Estende então uma das mãos sobre os olhos úmidos e a outra sobre a bancada, depositando o filme que estava nas mãos.

Num rápido movimento, ele se vira e corre até a sala, parando defronte a escrivaninha que havia deixado há poucos momentos.
A carta ainda está lá.
Assim como seu maço de cigarros e o cinzeiro absurdamente cheio.

Suas mãos automaticamente agarram-se à folha de papel, que de qualquer jeito ele enfia dentro do bolso da calça e ruma para a porta correndo.
A última corrida. A última chance.

3 comentários:

O Menino do Balão disse...

Espero que tenha continuidade. :)

Amanda disse...

muito longo....li só o começo e o fim...mais parec ser bom....otro dia volto..hahaha

ƒℓą√!ø disse...

Dramaticamente simbólico. Ou simples e monotonamente intenso? Sentimentos em terceira pessoa são estranhos de se contemplar.