30.9.09

There, There

As coisas sempre tomam seu rumo na hora certa.
Acho que chegou a hora de contar um episódio bizarro da minha vida nesse blog...

Muitos podem dizer que é besteira, mas uma das coisas que mais posso dizer que me marcou na minha vida inteira, até hoje, foi um sonho. Nem mesmo sei se posso chamar de sonho, acho melhor pesadelo mesmo.
E não era um simples sonho/pesadelo, mas um recorrente. Lembro-me de ter acontecido repetidas vezes desde que era pequeno, lá pela idade dos dez ou doze anos, acho.
Bom, lá vai...

O sonho sempre era o mesmo. Numa floresta na qual eu não enxergava nada colorido. Tudo estava em preto, branco ou em diversos tons de cinza, mas nada mais alegre ou iluminado que isso. As altas árvores pareciam velhas e parcialmente mortas sem o verde, e o céu carregado de nuvens cinzas. Um cenário aterrador.
Pois bem, lá estava eu. E não estava sozinho.
Eu tinha a nítida impressão de estar sendo observado. Sabem como é essa sensação? Conhecem essa intuição? Nunca está errada. Nunca mesmo.
Não via meu observador, pela simples razão de eu mesmo estar observando algo à minha frente, algo que se embrenhava pela floresta.

Não sei a razão, mas segui-a.
Sentia no fundo do meu coração que precisava alcançá-la, era uma questão prioritária. Aquela situação toda, vívida e bizarramente real, só tinha um objetivo: eu alcançar a criatura fugindo em minha frente.

Digo criatura porque em momento algum visualizei a tal "coisa" e até hoje não tenho a mínima idéia do que, ou quem, era.

Então, continuei perseguindo a criatura à minha frente.
À medida que avançávamos floresta à dentro, a criatura à minha frente parecia se acelerar, pressentindo que eu a perseguia avidamente. E pior: a outra "criatura", a que me observava, também me perseguia com determinação.

Era uma caçada dupla. Ao mesmo tempo em que eu me esforçava para alcançar a primeira criatura, corria desesperado para que a criatura de trás não me pegasse.
Tenso. No mínimo.


Depois de momentos simplesmente andando rápido, passam-se momentos com os três participantes correndo, um atrás do outro, desviando-se com cada vez mais dificuldade das árvores que crescem cada vez mais juntas, até que o caminho acabou.
De repente, as árvores acabaram e me vi numa imensa clareira, nos mesmos tons de cinza que todo o resto. Olho ao redor e vejo, ao longe, no limite da clareira, um tronco de árvore tombado ao chão. De certo modo, o tronco parece até mais iluminado que o resto do cenário.
Sei que a "coisa" que persigo está ali. Adianto-me apressadamente e vejo a árvore se aproximar, se agigantar, e então...
... sinto que a "coisa" que me perseguia me alcança. Tombo no chão e não vejo mais nada.

Simplesmente acordo nervoso.

Sonho recorrente, mas que [in]felizmente parou de acontecer já há tempos, mas a questão mais imprescindível da história toda ainda não foi dita.
Acho que todos conhecem RadioHead. Eu não conhecia muitas músicas deles, mas no acontecimento deles virem ao Brasil em março desse ano, entrei mais em contato. E foi aí que conheci a canção "There, There" e seu clipe.

Podem não acreditar [muita gente não acredita] mas fiquei em estado de choque quando assisti aquele clipe. É idêntico ao tal pesadelo! Idêntico, repito. As árvores secas, a floresta, os tons de preto-branco-cinza, o cenário lúgubre e solitário.
Fiquei abismado com tamanha bizarrice que procurei saber mais sobre o tal clipe.
Me dizem diversas coisas quando conto essa história.
Sim, foi impossível eu ter visto o clipe e ter ficado impressionado ao ponto de sonhar depois, pelo simples fato da música ser de 2003, época em que eu estava com meus treze, quatorze anos! E tenho o sonho quando era bem mais moleque, com uns dez como já disse...


Enfim, é só uma bizarrice da minha vida que já fazia tempo que eu já devia ter registrado nesse espaço.
Bom, pra terminar, tem que finalizar com o famigerado clipe, não? xD
There, There de RadioHead!
E até a próxima edição do "Sua Vida Bizarra"!
xD

"There, There" by RadioHead


*assistam no Youtube porque o vídeo não é autorizado pra Incorporação. Sim, eu sei: 'it sucks'.

23.9.09

Espelhos e Cortinas

Sorrisos enviesados e falas sem graça.
Que me fazem sorrir de volta enquanto, bobamente, complemento com palavras tão tolas ao nível do meu humor infante atual.

O meu olhar me trai, minha postura me trai, minhas palavras me traem.
Na real, uma traição que até admiro nas circunstâncias.
Apesar que não tenho lembranças de ter atacado tal coisa em momento algum.
Se me olhasse num espelho, riria de mim mesmo.
Com certeza.

Que faço eu se sou tão tolo a ponto de me deixar levar por qualquer brisa de sentimento?
Quando me lembro de resistir bravamente quando um furacão de emoções se aproximava?
Enfim, os ventos mudam de direção e as pessoas mudam de opinião.

As almas que nos rodeiam às vezes estão escondidas por espelhos resistentes ou suaves cortinas que se abrem com um leve toque do vento.
Cabe a cada um de nós tentar enxergar além de tais espelhos e cortinas, cada um sempre sabe o que vale a pena em uma alma que se cruza o caminho.
E em uma das várias almas que passam pela sua vida, pode ter um amigo.
Ou algo mais.

20.9.09

Noite Insone, Mente Insana

Sempre me acontecem tais noites assim.

Noites em que me sinto morto e é impossível querer ou conseguir dormir, ou até mesmo em alguns casos, nem mesmo pensar que isso pode acontecer.
Mortos não dormem, apenas jazem imóveis enquanto o nada reina absoluto.

O extremo cansaço, no entanto, supera [e muito] a ausência do sono e mesmo que meu corpo se deite estático, minha mente continua a gritar solitária, em mais uma noite perdida.

E assim tudo continua, ao passo em que a madrugada se esvai e os dias se seguem insistentes, porém, no mesmo clima estático de tais noites em estado de alerta.

Quando o sono não vem, o insano insone toma conta...

8.9.09

Passado Dependurado

O sol já havia nascido há horas mas dentro daquele pequeno apartamento tudo ainda permanecia escuro. Poucas e pequenas aberturas na janela de metal estendiam feixes de luz sobre as partículas que voavam pelo quarto. Um espetáculo à parte.

Um cheiro acre vindo do último filme fotográfico jogado ao fogo ainda persistia pelo local mas ele não se importava. Parecia até apreciar aquele cheiro.
Havia apenas três cômodos naquele apartamento. Dois quartos e uma sala-cozinha.
E por todo lado podia-se ver um nível acentudo de bagunça.
Um amontoado de roupas jazia sobre um sofá de couro preto no canto da sala, ao lado de uma pilha de envelopes pardos visivelmente cheios e lacrados. De frente ao sofá ficava uma pequena escrivaninha e uma cadeira, onde ele estava.

No menor dos quartos havia apenas uma cama desarrumada e um armário entreaberto que deixava visualizar as poucas roupas em seu interior.
No quarto maior, em diversas direções e em todas paredes, havia vários fios de barbante estendidos, todos com diversas fotografias dependuradas exibindo um passado iluminado e atualmente impensável.
Num pequeno balcão encostado à parede estavam diversos outros filmes que escaparam de ser incinerados.

E ali, na sala, estava ele, sentado naquela cadeira de madeira reta de frente à escrivaninha, havia horas. Em uma das mãos segurava uma folha.
Uma carta. Uma última carta.
Na outra mão, um cigarro aceso. E não seria o último.
Um cinzeiro sobre a mesa já estava cheio, mas nada mais importava.

A ausência dela perfurava-o como uma lâmina em brasa.

O jovem sorriso dela ainda resplandecia através de várias das fotos penduradas. Alguns ainda juntavam-se ao seu perfeito par de olhos escuros. Outros vigoravam dominantes e solitários sobre toda a fotografia.

Muitas daquelas fotografias eram literalmente pedaços de sua alma de outrora que materializavam os sonhos de um passado não tão distante. Sonhos que pareciam tão certos e ao mesmo tempo felizes demais para se tornar realidade.

Mas tornaram-se, mesmo que por algum tempo.

O cigarro acaba, assim como sua leitura da carta.
Nem se lembra quantas vezes a releu, mas ainda assim permanece com ela nas mãos.
Ele recosta-se à cadeira e larga o toco do cigarro sobre o cinzeiro. Pega então um rolo de filme sobre a mesa e se levanta.
Alguns passos e está no quarto com as fotografias penduradas.
Seu olhar as percorre rapidamente e se detém em uma determinada fotografia.


Dois rostos cortados pela metade exibem grandes sorrisos e ao fundo um horizonte de uma praia. O céu e o mar contrastando em diferente tons de azul mas quase se fundindo.
A arte em si não está perfeita, mas sem dúvida é a melhor fotografia ali.
Seu olhar mantém-se sobre ela por mais alguns momentos e então, como se despertasse de um sonho ruim, ele balança a cabeça rapidamente.
Estende então uma das mãos sobre os olhos úmidos e a outra sobre a bancada, depositando o filme que estava nas mãos.

Num rápido movimento, ele se vira e corre até a sala, parando defronte a escrivaninha que havia deixado há poucos momentos.
A carta ainda está lá.
Assim como seu maço de cigarros e o cinzeiro absurdamente cheio.

Suas mãos automaticamente agarram-se à folha de papel, que de qualquer jeito ele enfia dentro do bolso da calça e ruma para a porta correndo.
A última corrida. A última chance.