30.3.10

Anoitecer

O ônibus nem está tão lotado, mas ainda assim o irrita.
O som de seu mp3 o isola de todos à sua volta e ele não se importa. Só quer sair daquele ônibus logo.
O tranporte coletivo faz uma curva, cruza a praça e começa a descer uma das mais movimentadas avenidas da cidade.

Ele se levanta, pede licença ao rapaz sentado ao lado e segue para a frente do ônibus. Com a mão esquerda ajeita a camiseta enquanto a mão direita aperta a campainha do veículo.
Parada solicitada.

A noite caiu rápida. Já é anoitecer.
Menos de sete horas e o céu já tem um tom sombrio que ele tanto aprecia.
Ele apenas encara a rua passando, rápida, lá fora, através do vidro sujo e embaçado da porta lateral.

O ônibus avança alguns sinais vermelhos, mas tudo bem.
Ônibus pode.
O ponto chega, o ônibus pára, ligeiro, e o rapaz desce.
Nem bem desce e o ônibus arranca novamente, para evitar perder o próximo semáforo verde.


O rapaz anda devagar. Troca as músicas do mp3 e avança lentamente pela avenida.
Não há necessidade para correria. Nem para agitação.
Ele tenta se lembrar, mas não consegue com exatidão, saber há quantos dias não caminha à noite.
E nem é "tão" noite assim.
Esqueceu-se do fato de que a noite o acalma, ao contrário do dia, que tem a absoluta capacidade de fazer-lhe estressar em poucos minutos à luz do sol.


"Menos, cara", pensa consigo mesmo.
Um vento insistente sopra pelo centro da cidade.
É perto da hora do rush e os carros, motos e pedestres amontoam-se nos principais cruzamentos, preocupados em chegar em casa milésimos de segundo mais cedo do que no dia anterior.
"Seus tolos".

Seu olhar volta-se para o alto. Para o céu ao anoitecer.
E para sua surpresa para a lua cheia.
Grande lua cheia e seu coelho apaixonado.
"Seu tolo".

26.3.10

Passado de Prenúncios

A noite demorava a cair no verão.
Isso era algo que todos já sabiam mas nos momentos de silêncios constrangedores, tal assunto sempre voltava à pauta. Algo mais do que comum de se discutir com estudantes de um curso de Ciências da Terra como aqueles ali.
Tudo bem que, para aqueles quatro ou cinco calouros, discutir eixo de rotação da Terra e variação sazonal do alcance dos raios solares não era algo que eles conseguiriam fazer tranquilamente. Mas aqueles dois veteranos não se importavam.
E nem teriam razão para tal coisa.

Enquanto o rapaz guiava aquele sedã por ruas desconhecidas para os novatos, a moça, no banco do carona, ia tentando se comunicar com aqueles calouros assustados. Nome, apelido, cidade natal, perspectiva do curso e todas aquelas perguntas e respostas que sempre temos de saber decoradas ao conversar com recém conhecidos.
O carro chega à uma praça redonda iluminada, com uma torre ao centro. O rapaz, gracejando ao volante, diz que se perdeu e começa a rodar a praça. Uma, duas vezes. A moça também ri, acompanhada das risadas meio sem-graça, meio assustadas daqueles quatro ou cinco no banco de trás.


"Pára de graça agora, vai assustar os bixos..." diz a moça.
O rapaz ri mas obedece, e logo vira a primeira rua à direita. Poucas quadras depois, o carro para numa esquina, na frente de um bar mal cuidado e lotado de pessoas que se aglomeram na calçada.
"Chegamos bixarada. Tirem suas canecas!" exclama o rapaz desligando o carro e abrindo as portas.
Os quatro ou cinco calouros descem e, ainda um pouco receosos, aproximam-se do enorme grupo ali compactado. Gritos anunciam a sua chegada e logo os canecos estão cheios e a conversa rolando e as futuras amizades e inimizades de anos à frente começam a ser moldadas.

Duas ou três horas depois, três calouros já embriagados contam causos e riem sentados na beira de uma das calçadas com uma garrafa nas mãos. Um deles, já bêbado, tenta dizer algo e só depois de um tempo consegue com êxito:
"Ahh cara, preciso ir... Senão vou... vou me encrencar de verda-de!"
Os três se despedem e o rapaz se afasta, vai para a praça redonda que cruzou algumas horas antes e chama um táxi.

Por ironia do destino, sorte ou azar, um taxista tagarela o atende e logo estão conversando bastante. Os assuntos voam e por fim voltam ao tema da distância e morar fora de casa.
"Vim de longe pra estudar, espero aproveitar bem tudo que existe por aqui", diz o rapaz sonhador, talvez devido à leve embriaguez. Sonhos bêbados parecem tão mais possíveis!

"Sim, garoto. Também vim de longe pra trabalhar nessa cidade grande"
"É, muita gente vêm pra cá... Lugar de encontro, de amizades..."
"É, rapaz, mas deixe-me dizer uma coisa... Acredite se quiser, mas nesses mais de vinte anos que moro por aqui, não posso dizer que tenho um amigo de verdade. Não como os que eu tinha antes. Não como os do meu passado. Simplesmente é que: as amizades aqui são difíceis e não me arrisco a dizer que tenho um amigo por aqui."
O rapaz não respondeu, apenas concordou com a cabeça enquanto o taxista começava a falar sobre o assunto sobre o qual a memória não conseguiu reter.


Os anos passam, as coisas mudam, e outras coisas nem tanto. Se aquilo é verdade ou devaneio, mentira ou realidade?
Não se sabe.
Mas o rapaz, vez ou outra, acaba lembrando daquilo que lhe disseram certa vez num táxi...

19.3.10

À Mercê Da Realidade

Existe algo que todos querem.
Algo que apenas o outro pode te oferecer. Algo que você não pode alcançar sozinho.
Alguns não sabem o que é isso. Outros nem se importam e vivem felizes sem essa necessidade. Já outros conhecem e o têm na mais alta estima, enquanto alguns conhecem, mas não o possuem.

Pior do que não saber, é conhecer e não ter chance de conseguir.
Pior do que conhecer, é saber que nunca se alcançará.
Quando os desavisados encontram o outro que pode lhe oferecer o presente máximo dessa existência, é preciso refletir e perceber que se trata de um momento único dessa vida.
Do mesmo modo, encarar a realidade de algo impossível também é algo único dessa vida. Algo infeliz, mas necessário e tremendamente real.


Todos estamos à mercê dessa realidade.
E a realidade esmaga à tudo e à todos. Sempre.
Pra se abrigar desse ataque massivo é preciso coragem suficiente para reconhecer as próprias fraquezas e qualidades.
Saber a diferença da hora de correr e a hora de fugir.
A diferença entre estar certo e se arriscar pelos outros.
A diferença entre ser covarde e agir com o coração.

Se não entendeu nada do que eu disse, não se preocupe:
Um dia, a realidade ainda te fará sentir de um jeito semelhante.

5.3.10

Hora da Bagunça!

As coisas mais bonitas e as mais terríveis parecem poder, sempre, ser visualizadas na infância. Desde os mais singelos gestos de amizade aos momentos solitários que, só sendo criança, pode-se entender.



Quem assistiu "Onde Vivem Os Monstros" ["Where The Wild Things Are"] pode concordar comigo.

O garoto Max, ao se sentir sozinho e assustado em casa, refugia-se numa ilha onde habitam simpáticos [e outros nem tanto] monstros. Através da relação entre eles, o garoto e o monstro Carol se identificam e tornam-se amigos.

É fácil ver como ambos não sabem agir frente ao medo e à solidão [coisa que muita gente grande também não sabe lidar] e, como o garoto, vivendo entre os novos amigos, amadurece e percebe que mesmo quando as coisas não são como se espera, também pode-se ter bons momentos.




A cena da "hora da bagunça", quando o garoto é coroado "rei" da ilha, é aquela típica manifestação da liberdade sem o peso da responsabilidade. Afinal, nada mais importa além da competição sobre quem consegue fazer a maior bagunça em menos tempo...

Impossível não se emocionar nem um pouco ao assistir esse filme.
Só alguém extremamente insensível passaria por esse filme sem se identificar, pelo menos um pouco, com as atitudes e sentimentos da criança e dos monstros. Talvez com Judy, que sempre revela seu pessimismo frente à vida; ou Ira, o par de Judy que faz tudo por aqueles que de quem gosta; Alexander, com seu complexo de inferioridade; ou Douglas, com um companheirismo inabalável pelos amigos; ou, no fim, por KW, que protege os amigos à qualquer custo.

Grande lição destes "monstros" [metaforicamente tão reais] que, algumas vezes, acabam por brigar entre si mas que, no fundo, sabem que estão ligados e que são melhores juntos do que separados.

É aquela velha história: quando as pessoas machucam umas às outras, não basta perdoar ao próximo, é preciso se perdoar também.
Filme interessante, principalmente pra se ver como os lados de "criança" e "selvagem", que habitam em cada um de nós, continua existindo, mesmo depois que a infância já foi deixada bem lá pra trás. Profundas emoções... hehe