26.3.10

Passado de Prenúncios

A noite demorava a cair no verão.
Isso era algo que todos já sabiam mas nos momentos de silêncios constrangedores, tal assunto sempre voltava à pauta. Algo mais do que comum de se discutir com estudantes de um curso de Ciências da Terra como aqueles ali.
Tudo bem que, para aqueles quatro ou cinco calouros, discutir eixo de rotação da Terra e variação sazonal do alcance dos raios solares não era algo que eles conseguiriam fazer tranquilamente. Mas aqueles dois veteranos não se importavam.
E nem teriam razão para tal coisa.

Enquanto o rapaz guiava aquele sedã por ruas desconhecidas para os novatos, a moça, no banco do carona, ia tentando se comunicar com aqueles calouros assustados. Nome, apelido, cidade natal, perspectiva do curso e todas aquelas perguntas e respostas que sempre temos de saber decoradas ao conversar com recém conhecidos.
O carro chega à uma praça redonda iluminada, com uma torre ao centro. O rapaz, gracejando ao volante, diz que se perdeu e começa a rodar a praça. Uma, duas vezes. A moça também ri, acompanhada das risadas meio sem-graça, meio assustadas daqueles quatro ou cinco no banco de trás.


"Pára de graça agora, vai assustar os bixos..." diz a moça.
O rapaz ri mas obedece, e logo vira a primeira rua à direita. Poucas quadras depois, o carro para numa esquina, na frente de um bar mal cuidado e lotado de pessoas que se aglomeram na calçada.
"Chegamos bixarada. Tirem suas canecas!" exclama o rapaz desligando o carro e abrindo as portas.
Os quatro ou cinco calouros descem e, ainda um pouco receosos, aproximam-se do enorme grupo ali compactado. Gritos anunciam a sua chegada e logo os canecos estão cheios e a conversa rolando e as futuras amizades e inimizades de anos à frente começam a ser moldadas.

Duas ou três horas depois, três calouros já embriagados contam causos e riem sentados na beira de uma das calçadas com uma garrafa nas mãos. Um deles, já bêbado, tenta dizer algo e só depois de um tempo consegue com êxito:
"Ahh cara, preciso ir... Senão vou... vou me encrencar de verda-de!"
Os três se despedem e o rapaz se afasta, vai para a praça redonda que cruzou algumas horas antes e chama um táxi.

Por ironia do destino, sorte ou azar, um taxista tagarela o atende e logo estão conversando bastante. Os assuntos voam e por fim voltam ao tema da distância e morar fora de casa.
"Vim de longe pra estudar, espero aproveitar bem tudo que existe por aqui", diz o rapaz sonhador, talvez devido à leve embriaguez. Sonhos bêbados parecem tão mais possíveis!

"Sim, garoto. Também vim de longe pra trabalhar nessa cidade grande"
"É, muita gente vêm pra cá... Lugar de encontro, de amizades..."
"É, rapaz, mas deixe-me dizer uma coisa... Acredite se quiser, mas nesses mais de vinte anos que moro por aqui, não posso dizer que tenho um amigo de verdade. Não como os que eu tinha antes. Não como os do meu passado. Simplesmente é que: as amizades aqui são difíceis e não me arrisco a dizer que tenho um amigo por aqui."
O rapaz não respondeu, apenas concordou com a cabeça enquanto o taxista começava a falar sobre o assunto sobre o qual a memória não conseguiu reter.


Os anos passam, as coisas mudam, e outras coisas nem tanto. Se aquilo é verdade ou devaneio, mentira ou realidade?
Não se sabe.
Mas o rapaz, vez ou outra, acaba lembrando daquilo que lhe disseram certa vez num táxi...

4 comentários:

R@mon_Vitor disse...

Suas crônicas são bem fundadas e com finais interessante. Fiquei tenso com o trote... auhaahuahaa lembrei do meu, que foi divertido, mas nunca se sabe...

Emily Ferry disse...

muito criativo você gosteei xD

Amanda disse...

Por ironia do destino, sorte ou azar.....


fala sério.....vivemos disso

R@mon_Vitor disse...

Tá na hora de atualizar. \o/